quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Correio Brasiliense tem acesso a música que o roqueiro Raul Seixas deixou na gaveta

Apesar de menosprezada, ela permaneceu intacta na memória de Claudio Roberto e de Tania Menna Barreto, companheira de Raul
Em 1977, Raul Seixas recebeu em seu apartamento de Copacabana, no Rio de Janeiro, um fã que, aos poucos, convertera-se em amigo. Era Luiz Silveira, então com 17 anos. No violão, o roqueiro mostrou ao rapaz uma composição feita com o parceiro Claudio Roberto, batizada de A loucura de Eva. Contudo, apesar da associação bem-sucedida com Claudio — a dupla criou clássicos, como Maluco beleza e O dia em que a terra parou —, Raul preferiu não gravá-la como fora concebida. Com outra letra e renomeada Por quem os sinos dobram, agora coassinada com o argentino Oscar Rasmussen, Raul registrou a faixa dois anos depois. A primeira versão foi para a gaveta, mas inspirou o mesmo Luiz Silveira a escrever, com autorização do ídolo, sua adaptação para a canção.
O Correio teve acesso aos versos inéditos de A loucura de Eva. Apesar de menosprezada pelo roqueiro, ela permaneceu intacta na memória de Claudio Roberto e de Tania Menna Barreto, companheira de Raul na segunda metade dos anos 1970. Foi ela quem cantou, ao telefone, a música original. A história da composição guardada havia sido citada no documentário Raul — O início, o fim e o meio (2012), no qual o refrão é entoado por Claudio. Esta é a primeira vez, entretanto, que outros trechos da música chegam ao grande público.
O carioca Claudio Roberto conheceu Raul quando tinha 11 anos de idade e tornou-se compositor por influência dele. Desde 1977, vive retirado em um sítio na zona rural de Miguel Pereira (RJ). Aos 61 anos, disse não saber, e nem se importar, com a razão pela qual A loucura de Eva não ter sido gravada. “Não faço a menor ideia, amigo. Isso ele levou para o túmulo”, comentou. “Na época, algumas pessoas queriam que eu brigasse com ele por esse ou por aquele interesse, e eu avisei logo que eu não era parceiro do Raul, era amigo.”
Tania Menna Barreto aprendeu os versos da canção feita por Raul e Claudio e os guardou com carinho. “Eu canto ela de vez em quando ao violão, inclusive em alguns shows que fiz”, destacou. A ex-companheira do artista diz preferir A loucura de Eva à segunda versão, e acredita que a letra de Por quem os sinos dobram traz vários recados de Raul para ela, já que, quando foi recriada, o casal ensaiava uma crise. “É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”, cantarola, citando um dos versos da parceria com Oscar Rasmussen, morto há dois anos na Argentina, vítima de câncer.
Sylvio Passos, fundador do primeiro fã-clube oficial de Raul, também conhece as duas letras, mas discorda de Tania. “O texto de Por quem os sinos dobram é muito mais impactante e atemporal do que o de A loucura de Eva. Acho que o Raul não curtiu muito, não. É interessante a brincadeira com Darwin e tal, mas penso que ele optou por uma coisa mais ampla”, sugere. Segundo Passos, era comum o roqueiro baiano refazer algo de que não tinha gostado. “Muitas músicas do Raul têm vários textos diferentes. Ele aproveitava a melodia e reEscrevia, com outra ideia no lugar”, afirmou.

Bobagem/Coragem

Quando Raul cantou A loucura de Eva para Luiz, disse a ele que gostava muito do refrão, mas nem tanto do restante da poesia. “E eu, ousadamente, pedi pra tentar mudar”, lembra o fã, hoje produtor cultural, aos 53 anos. Raul deixou. O resultado é Em quem Eva mamou?, inspirada na temática original e de refrão semelhante, mas com melodia diferente. A faixa foi colocada no YouTube há algumas semanas, com vocais de André 14 Voltas, e deu início ao resgate dessa história.
Por quem os sinos dobram, mesmo título do romance do americano Ernest Hemingway, versa sobre autoavaliação e encorajamento. A original, de viés feminista, ressalta a importância de Eva na origem do homem. Foi por esse caminho que Luiz Silveira seguiu. “Fiz o que Raul me pediu: mantive o refrão e mudei todo o restante, enaltecendo a figura da mulher. Em Por quem…, ele aproveitou duas sequências de notas da original e, no refrão, em vez de ‘bobagem’, usou ‘coragem’”, detalha.
Silveira demorou muitos anos para mostrar o que tinha feito a Raul, mas diz ter tido a aprovação dele no camarim de um show com Marcelo Nova, no Rio, já no fim da vida do ídolo. O último suspiro de Raul nos palcos, parte desta mesma turnê, aconteceu em Brasília, há exatos 24 anos. O roqueiro seria encontrado morto em seu apartamento em São Paulo, em 21 de agosto de 1989, aos 44 anos.

Compare os trechos
A loucura de Eva

(Primeira estrofe e refrão da composição inédita de Raul Seixas e Claudio Roberto)

Ninguém tem certeza
a respeito da origem do homem
Pois a vida não começou onde
a história começa
Mil teorias, é gente falando à beça
E tudo que me oferecem tá sempre faltando uma peça
(…)
Bobagem, bobagem, pensar que o homem nasceu de um macaco qualquer
Bobagem, bobagem, o homem
nasceu da mulher
Por quem os sinos dobram

(Primeira estrofe e refrão da parceria de Raul e Oscar Rasmussen, gravada em 1979, com a mesma melodia anterior)

Nunca se vence uma guerra lutando sozinho
Cê sabe que a gente precisa entrar em contato
Com toda essa força contida e que vive guardada
O eco de suas palavras não repercutem em nada
(…)
Coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que pensa e faz
Coragem, coragem, eu sei que você pode mais
Em quem Eva mamou?

(O fã Luiz Silveira se aproveitou do refrão da versão original para, com autorização de Raul, criar uma nova canção)
(…) Dão sempre a ela o papel de vilã

E ele o Narciso, macaco galã
Se é paraíso, pra quê sutiã?
Com ou sem leite, se entregue ao deleite
Aproveite o prazer da maçã
(…)
Bobagem, bobagem, bobagem, bobagem
Dizer que o homem veio de um macaco qualquer
Bobagem, bobagem, bobagem, bobagem
O homem veio mesmo foi de uma mulher

Ex-companheira de Raul Seixas revela ao Correio o mito na intimidade

 Tania Menna Barreto, terceira companheira do cantor, conheceu o ícone do rock brasileiro em uma festa e desconfiou que ele estava olhando para ela

O casal em um hotel em Salvador, no fim dos anos 1970. 'Adoro essa foto', diz Tania


Tania Menna Barreto ligou a televisão e se deparou com um sujeito vestindo calça rosa, camisa vermelho-alaranjada e um colete amarelo por cima. Cantava uma música de ares proféticos e tinha gesticulação peculiar. “Uau, que cara interessante”, disse. O ano era 1974 e o artista, Raul Seixas. Gita foi um dos grandes sucessos daquela temporada. A jovem só foi conhecer o roqueiro dois anos depois. Em uma festa, notou sua presença e desconfiou que ele estava olhando para ela. A dúvida era por causa dos onipresentes óculos escuros. Mas Raul estava, sim. Ela soube quando um amigo comentou que o ícone do rock brasileiro já havia levantado a ficha dela e sabia seu nome completo.

Amor nos tempos do Rock: Raul Seixas e Tania Menna Barreto

Tania foi a terceira companheira de Raul Seixas. Estiveram juntos, oficialmente, entre 1976 e 1979 — mas encontraram-se, esporadicamente, até 1984. Foi ela quem cantou, ao telefone, a canção inédita A loucura de Eva, parceria de Raul e Claudio Roberto, cujo trecho foi divulgado ontem pelo Correio. As várias conversas com a reportagem fizeram com que Tania se sentisse à vontade para abrir seu baú de memórias e revelar algumas das páginas de um álbum de fotos que guarda imagens raras de Raul, clicadas em fins dos anos 1970. Algumas foram postadas na página de Tania em uma rede social, mas esta é a primeira vez que atingem o grande público.

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