A queda da democracia.

A queda da democracia. Artigo de François Dubet
( Instituto Humanitas Unisinos – IHU) “Não basta denunciar as injustiças sociais e realizar uma crítica contínua para derrotar os inimigos da democracia. A construção de um pensamento econômico e social de esquerda exige um trabalho intelectual e político longo, muitas vezes paradoxal e difícil, caso não queiramos que a queda da democracia seja o nosso futuro mais provável”, escreve François Dubet, sociólogo francês, em artigo publicado por Clarín-Revista Ñ, 22-12-2025. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
Entre 1945 e os anos 2010, as sociedades industriais da Europa Ocidental e da América do Norte se consideravam, e às vezes eram percebidas, democráticas. Apesar da violência colonial, do imperialismo e das crises políticas, pareciam garantir a liberdade dos cidadãos, a busca pela igualdade, a separação dos poderes e certa confiança no progresso. Não é necessário idealizar este período histórico para ver que estamos mudando para outro mundo.
Trump instaura um poder racista, incita à violência, reforça a oligarquia financeira e submete o mundo aos seus caprichos e ameaças. Sob diferentes modalidades, a extrema direita reina na Itália, Hungria e Japão, participa do poder na Suécia e, amanhã, poderá governar na Inglaterra, Espanha, França, Países Baixos e outras democracias antigas. Trata-se, sem dúvida, de uma onda de queda das democracias. Como explicar isto a não ser pela dinâmica das crises políticas e os caprichos de tiranos narcisistas?
Classes sociais com desigualdades
As sociedades democráticas foram sociedades industriais, nas quais as classes fundamentavam as identidades coletivas e estruturavam os conflitos sociais. De diversas maneiras, em todas as partes, enfrentaram-se a direita e a esquerda, os partidos dos capitalistas, e os burgueses, e os partidos dos operários e trabalhadores. É claro, as desigualdades de classe não eram as únicas; mulheres e minorias culturais eram frequentemente marginalizadas, mas organizavam a vida social e política em torno de conflitos regulados por negociações. Assim, por várias décadas, os estados de bem-estar social se desenvolveram, as desigualdades foram reduzidas e podíamos acreditar que o progresso econômico e o progresso social avançavam no mesmo ritmo.
O paradoxo do que se denomina globalização e neoliberalismo com muita leveza provém do fato de que, por um lado, o domínio capitalista aumentou, se “desnacionalizou”, os ricos são cada vez mais ricos, ao mesmo tempo em que o regime de classes sociais se esgotou. As identidades de classe se fragilizaram e, sobretudo, as desigualdades se multiplicaram e individualizaram. Não só as grandes fábricas se mudaram para a China, como hoje os cidadãos se percebem como singularmente desiguais em função de uma multiplicidade de fatores e dimensões: o trabalho e a renda, mas também a origem, o gênero, a sexualidade, o local de residência, os títulos acadêmicos...
A longo prazo, todo mundo se sente desprezado, ignorado, invisível, e esse sentimento de desprezo é utilizado pelos líderes populistas contra as elites, os estrangeiros, os “sábios”, os meios de comunicação “oficiais”... Os sindicatos e os antigos partidos de classe, tanto de esquerda quanto de direita, caem sobretudo porque, graças à internet e às redes sociais, todo mundo acredita ter a possibilidade de acessar diretamente o espaço público para expor sua experiência e sua raiva, sem passar pelo filtro dos partidos e das organizações. Não é de estranhar que a extrema direita defenda esta liberdade.
A igualdade e o neodarwinismo
O afastamento da sociedade de classes está associado a uma transformação dos conceitos de justiça social. Na sociedade industrial, a justiça social tinha como objetivo reduzir as desigualdades de condições e consistia em devolver aos trabalhadores uma parte da riqueza que produziam em nome da solidariedade. Hoje, e ao contrário dessa concepção, impõe-se progressivamente o ideal da igualdade de oportunidades: todo mundo deve ter a possibilidade de alcançar qualquer posição social, por mais desigual que seja.
Nesse caso, a consciência da exploração é substituída por um sentimento de discriminação, e cada um pode, em maior ou menor grau, sentir-se como uma minoria discriminada no marco de uma concorrência pura e perfeita. Pouco a pouco, as minorias discriminadas substituem as classes sociais. Todos têm direito à igualdade de oportunidades e ao reconhecimento de uma igual dignidade de sua identidade cultural, sexual e religiosa.
Ainda que pouco discutível em termos de justiça, o império do ideal da igualdade de oportunidades pode ter duas consequências desfavoráveis para a democracia. A primeira é a substituição da antiga divisão de classes pela oposição entre vencedores e perdedores da concorrência meritocrática. Devido à massificação escolar e à influência dos diplomas na trajetória das pessoas, os vencedores da concorrência se tornam legítimos, se beneficiam das mudanças sociais e são percebidos como arrogantes, ao passo que os vencidos nesta concorrência, considerados responsáveis por seus fracassos, desenvolvem um ressentimento contra as elites e os valores da escola. Até os anos 1980, os trabalhadores com baixo nível de estudos votavam na esquerda; hoje, aqueles que não têm títulos acadêmicos tendem a votar na extrema direita e a se abster. Os “ricos” votam na esquerda, os “pobres” votam na direita.
A segunda consequência do reinado da discriminação é o “retorno do reprimido”, a reação violenta provocada pelo reconhecimento das minorias. As antigas maiorias nacionais, religiosas ou sexuais, perdem seus privilégios e têm a sensação de ser as “verdadeiras discriminadas”. Quando a igualdade de gênero avança, muitos homens se sentem ameaçados e, pela primeira vez, a maioria dos eleitores masculinos originários da América Latina votaram em Trump. As maiorias populares defendem a nação que seria destruída por ondas migratórias e os direitos das minorias.
Evidentemente, tudo isso pode parecer absurdo, mas é preciso reconhecer que, em muitos casos, as comunidades populares que defendem um imaginário nacional, religioso ou sexual se sentem desprezadas e votam nos líderes que mobilizam sua raiva. Apoiam os partidos que mobilizam seus medos, ao mesmo tempo em que se apoiam em uma oligarquia que quer destruir os direitos sociais, o estado de bem-estar social e as garantias institucionais.
Os líderes populistas não escondem suas intenções. Querem associar o conservadorismo social e moral a um liberalismo total e darwinista. Este pensamento agora tem lugar em um mundo intelectual conservador e libertário que combina o nacionalismo, o racismo e o virilismo com a defesa de uma liberdade pessoal reduzida às escolhas dos consumidores e à liberdade de expressão mais radical. Muitos meios de comunicação, nas mãos de poucos bilionários, apoiam esta causa alimentando o ódio contra os migrantes, a ciência e as universidades. Tudo isto à custa do civismo, da defesa dos direitos e da separação de poderes.
O que a esquerda pode fazer? Esta onda antidemocrática é tão forte que a esquerda parece paralisada. Seus antigos eleitores vão para a extrema direita. Frequentemente, é identificada com as elites neoliberais e não sabe como abordar as questões relacionadas à nação, segurança e imigração por medo de se ver arrastada a terrenos perigosos. Na Europa, vê claramente que os estados nacionais perderam parte de sua soberania, sabe que as políticas keynesianas colidem com a globalização do comércio e que as políticas ecológicas exigem sacrifícios de todos e não só dos mais ricos.
Na maioria dos casos, a esquerda se limita a condenar moralmente seus adversários e a rejeitar o que na Europa chamamos de populismo, que, no entanto, pouco tem a ver com os movimentos populistas nacionais latino-americanos. Esta condenação é necessária, mas não basta para construir uma alternativa crível aos movimentos antidemocráticos que falam em nome de um povo que acredita ter boas razões para apoiá-los.
A luta pela redução das desigualdades sociais permanece sendo uma prioridade. Não é “radical” recordar que os populismos são menos o partido do povo do que o partido dos ultrarricos que dominam a vida econômica e social hoje. Uma sociedade mais igualitária é uma sociedade mais pacífica e democrática, na qual a “guerra de identidades” é menos violenta. É evidente que a igualdade de oportunidades é um princípio de justiça inquestionável, sempre e quando se recorde que se deve dar prioridade aos vencidos da concorrência meritocrática, para que obtenham o que lhes corresponde em termos de renda e dignidade. Sem isso, o confronto contínuo entre os vencedores e os vencidos da concorrência meritocrática, seja ela econômica ou acadêmica, não deixará de alimentar o poder absoluto de alguns e a humilhação de outros.
Por muito tempo, a nação se percebeu como o marco cultural e social da solidariedade e da cidadania no qual aceito fazer sacrifícios por outros do quais dependo e acredito que se parecem comigo. Na Europa e na América do Norte, as nações não são mais o que acreditavam ser: são pluriculturais, estão inseridas em culturas e economias internacionais. Diante desta mudança, os populismos mobilizam o nacionalismo e o ódio contra os outros, ao passo que a esquerda permanece em silêncio quando deveria construir um imaginário e uma concepção do comum, da solidariedade e dos valores compartilhados em uma democracia mais ampla e ativa. Nesse sentido, a esquerda não deveria abandonar as questões da nação e o pluralismo cultural aos inimigos da democracia.
Não basta denunciar as injustiças sociais e realizar uma crítica contínua para derrotar os inimigos da democracia. A construção de um pensamento econômico e social de esquerda exige um trabalho intelectual e político longo, muitas vezes paradoxal e difícil, caso não queiramos que a queda da democracia seja o nosso futuro mais provável.

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