Fim do espectro? Cientistas propõem novo modelo para o autismo

Estudos indicam que o autismo possui subtipos biológicos distintos, que colocam em xeque o modelo de espectro linear e demandam novas abordagens
O modelo de espectro linear já não dá conta de
abordar as várias condições distintas do autismo • Freepik
(Jorge Marin, colaboração para a CNN Brasil) Quando a psiquiatra britânica Lorna Wing propôs, em 1979, o termo “espectro do autismo”, seu objetivo não era criar uma nova categoria diagnóstica fechada, mas desmontar as categorias rígidas que dominavam a psiquiatria infantil da época.
Até então, o autismo era diagnosticado sobretudo a partir da descrição original de Leo Kanner, de 1943, como uma condição rara, bem delimitada e homogênea. Por não se encaixarem perfeitamente nos critérios clássicos, muitas crianças com dificuldades sociais, comunicativas e comportamentais acabavam fora da “caixinha”.
Pragmática e ética, a proposta de Wing buscava mostrar que o autismo não era um fenômeno raro e excepcional, mas parte de uma vasta gama de diferenças no desenvolvimento social e comunicativo. A ideia original da ferramenta era incluir, e não rotular de forma definitiva.
No entanto, agrupar várias condições distintas sob o guarda-chuva único do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) acabou criando um grupo tão vasto e heterogêneo que o diagnóstico perdeu sua especificidade. Hoje, duas pessoas diagnosticadas podem não compartilhar nenhuma característica comum.
Essa generalização excessiva tem um custo alto para a pesquisa científica. Ao estudar grupos tão misturados sob o mesmo rótulo, os resultados dos estudos se tornam inconsistentes ou inconclusivos. Na prática clínica, o que parecia inconclusivo se tornou um obstáculo científico.
Essa generalização cobra um preço alto da ciência. Ao misturar perfis biológicos opostos sob o mesmo rótulo, os estudos produzem resultados contraditórios: o que funciona para um grupo falha para outro. Com isso, o conceito de espectro, que nasceu para ser inclusivo, acabou virando um entrave para o progresso médico.
Isso porque, na prática, a ideia de uma linha reta do “leve” ao “grave” é uma simplificação perigosa. Ela mascara as necessidades reais do paciente, ignorando algumas vezes o que a ciência já provou: a biologia do autismo não segue uma régua única, mas é composta por múltiplas camadas e mecanismos distintos.
Subtipos genéticos e suas limitações
No autismo, cientistas identificaram centenas de
 variações interagindo de formas únicas • Freepik
Estudos recentes — como o realizado por Benjamin Neale, Anders Børglum e colegas, publicado em 2019 na Nature Genetics — têm utilizado grandes bancos de dados, genética e neuroimagem para identificar padrões mais específicos dentro do autismo. Essas análises revelaram diferenças genéticas entre subtipos clínicos.
Os resultados sugerem que o que chamamos de "espectro" tem, na verdade, raízes biológicas distintas. Em outras palavras, não existe apenas um "gene do autismo", mas sim centenas de variações que interagem de formas únicas. Isso reforça a tese de que o autismo não é único.
Dessa forma, tratar pessoas de subtipos biologicamente diferentes como se fossem iguais dificulta a medicina de precisão, não pela diversidade em si, mas pela insistência em ignorá-la. Um mesmo medicamento para ansiedade aplicado a duas pessoas com perfis genéticos distintos tanto pode ajudar quanto causar efeitos adversos.
Por isso, separar subgrupos biológicos não significa rotular pessoas de forma rígida, mas desagregar o fenômeno para que cada mecanismo possa ser estudado isoladamente. Só dessa forma será possível desenvolver tratamentos mais eficazes, direcionados e menos arriscados.
Embora a identificação de subtipos biológicos seja valiosa para o desenvolvimento de tratamentos, é importante reconhecer suas limitações, alerta a psicóloga Amy Pearson, da Universidade de Durham, Reino Unido, em entrevista à New Scientist.
Para a pesquisadora — que também se identifica como autista —, “subtipos não capturam a multidimensionalidade do desenvolvimento”. Assim como qualquer outra pessoa, indivíduos autistas mudam de inúmeras maneiras ao longo da vida, diz Pearson, e os subtipos, embora úteis, são apenas aproximações grosseiras do comportamento e da experiência autista.
“Constelações”: aprendendo a tratar pessoas neurodivergentes
Em vez de aceitar o rótulo “estar no espectro”, a
 comunidade autista adotou a metáfora da
 roda de cores • Rebecca Burgess/Divulgação

Atualmente, a proposta para substituir o modelo linear são as “constelações” ou perfis multidimensionais. Enquanto o espectro atribui uma “nota” geral de severidade, a abordagem por eixos independentes permite identificar, por exemplo, uma alta habilidade em Linguagem, mas uma dificuldade severa em Processamento Sensorial.
A pergunta-diagnóstica deixa de ser "o quão autista essa pessoa é?", e passa a ser "quais são as forças e quais são as dificuldades específicas desse indivíduo?". As respostas podem ser registradas em um gráfico que, por sua vez, gera uma forma geométrica: a “constelação”, que é única para cada pessoa.
Certamente, o primeiro passo para derrubar estereótipos prejudiciais é a educação. A ideia é libertar a sociedade (e até muitos médicos) das ideias antigas. Em vez de simplesmente aceitar o rótulo uniforme e incerto de “estar no espectro”, a comunidade autista tem adotado, nos últimos anos, a metáfora da roda de cores.
Criada originalmente como uma tirinha virtual pela cartunista britânica Rebecca Burgess — diagnosticada como autista —, a roda “Entendendo o Espectro” tem diversos raios coloridos representando traços específicos, como sensibilidade sensorial ou interesses focados, variando em intensidade conforme os múltiplos “enredos” possíveis.
Além de melhorar as abordagens clinicas, essa mudança de paradigma impacta as políticas públicas e a educação. Aprender como tratar pessoas neurodivergentes é a chave para substituir a régua genérica do espectro por um olhar atento à constelação única de necessidades de cada indivíduo.

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