Moradores de Juiz de Fora relatam caos após chuva recorde
A reportagem é de Isabel Seta, Agência Pública, - Já chovia muito quando, por volta das 22h desta segunda-feira, 23 de fevereiro, Anderson Mendes, 29 anos, ouviu um barulho muito alto, seguido pelo alerta “severo” da Defesa Civil em seu celular. O aviso advertia sobre o risco de alagamento e deslizamento. Pouco depois, a confirmação chegou pela síndica no grupo de WhatsApp do prédio: acabara de ocorrer um deslizamento de terra, mas ainda era impossível saber exatamente o que estava acontecendo. Um pedido: que todos ficassem alertas.
Não demorou muito para Mendes, morador de Paineiras, bairro de Juiz de Fora, na zona da mata mineira, ouvir um barulho “muito forte se aproximando”, “um barulho muito assustador”. Ele não teve dúvidas: saiu correndo para o corredor, ainda sem camisa, onde encontrou com vizinhos, igualmente apavorados. Já da entrada do prédio, eles tiveram um vislumbre do que estava acontecendo: uma casa estava caída, a rua parecia devastada e a chuva descia do céu muito forte. Alguém gritou: “cuidado, vai cair mais!”. Mendes voltou, vestiu uma camiseta, pegou o celular, o carregador e saiu correndo no meio da chuva mesmo. Enquanto isso, outros moradores desesperados também deixavam o edifício, alguns acompanhados por seus animais de estimação.
Mendes, que é dançarino e ator, conhecido pelo nome artístico de Andy Mendes, passou a noite abrigado na escola musical onde trabalha, algumas ruas mais para baixo, sem ainda saber exatamente o que tinha acontecido. Pela manhã, ele recebeu um novo alerta da Defesa Civil – dessa vez de risco “extremo”.
“Acordei, fui do lado de fora e era aquele cenário de tragédia. Muito barro na rua, a água ainda caindo. Só hoje [terça-feira, 24 de fevereiro] tivemos dimensão do que aconteceu. O topo do morro que fica no final da rua deslizou, dá para ver a vala gigantesca que se formou. O barranco desceu, carregou uma casa e a terra atravessou totalmente outra casa, vazando aqui na frente da rua, tampou toda a rua”, relatou à Agência Pública.
Ele soube que os bombeiros conseguiram resgatar algumas pessoas soterradas, mas que é possível que ainda haja vítimas encobertas pelos entulhos. Mais notícias começaram a chegar de outras partes da cidade: um amigo que vive no bairro Parque Burnier, um dos mais atingidos, perdeu a mãe, soterrada. “Outras pessoas tiveram perdas materiais, há muita gente precisando de ajuda”, relatou.
A experiência de Mendes é apenas uma de centenas de uma noite de horror em Juiz de Fora. A cidade mineira de meio milhão de habitantes enfrenta o fevereiro mais chuvoso de sua história, com 584 milímetros acumulados no mês, o dobro do esperado para o mês, segundo a prefeitura.
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