PRONERA, UESC e educação do campo

O Assentamento Terra Vista, Arataca, Bahia, recebeu, no dia 24 de agosto de 2026, a cerimônia de abertura da turma do curso de Licenciatura em Filosofia da Terra, uma iniciativa construída a partir da parceria entre o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA), o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), a Teia dos Povos, movimentos sociais do campo e a Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).
A implantação dessa turma especial, destinada a beneficiários da reforma agrária e quilombolas, representa um momento significativo na trajetória da educação do campo e na história da própria Universidade. Mais do que a criação de uma nova turma de graduação, trata-se da concretização de uma experiência político-pedagógica que nasce do encontro entre a universidade, os movimentos sociais, os territórios e os sujeitos que historicamente lutam pelo direito à terra, à educação e ao conhecimento.
A iniciativa tem à frente o Departamento de Filosofia e Ciências Humanas (DFCH) da Uesc e expressa o esforço de ampliar a presença da Universidade nos territórios, não apenas levando a educação superior para além de seus espaços tradicionais, mas também reconhecendo que os territórios do campo são lugares de produção de conhecimento, de pensamento, de cultura e de modos próprios de compreender e transformar o mundo. A proposta busca valorizar os saberes das comunidades, as experiências dos povos do campo e os conhecimentos produzidos nas lutas sociais, estabelecendo um diálogo fecundo com a tradição filosófica e com a produção acadêmica.
A cerimônia contou com a presença da Reitoria da Uesc, representada pelo vice -reitor, Prof. Maurício Moreau, além da coordenação do curso, direção do DFCH, PROEX, representantes do INCRA, movimentos sociais, Teia dos Povos, professores, estudantes e membros da comunidade do Assentamento Terra Vista. O encontro marcou, não apenas o início formal de uma turma, mas a abertura de um processo formativo que pretende articular filosofia, educação do campo, saberes tradicionais, experiências comunitárias e realidade social.
 A criação da Licenciatura em Filosofia da Terra é também resultado de uma trajetória de luta e de uma utopia militante construída ao longo do tempo por integrantes dos movimentos sociais do campo, professores, estudantes e intelectuais comprometidos com a construção de outras formas de relação entre universidade e sociedade. Entre essas vozes, destaca-se a atuação do professor Ademar Bogo, cuja militância e reflexão contribuíram para alimentar o sonho de uma formação filosófica profundamente vinculada à vida concreta, às lutas sociais e aos processos de transformação dos territórios. Essa utopia parte de uma compreensão fundamental, a saber: pensar e agir não são dimensões separadas. Isto é, a filosofia não deve permanecer restrita aos espaços acadêmicos ou à elaboração abstrata de conceitos, mas pode constituir-se como exercício de reflexão sobre a própria experiência histórica dos sujeitos e como instrumento para compreender criticamente a realidade e nela intervir. Trata-se, portanto, de apostar no entrelaçamento entre o agir e o pensar, entre a prática e a teoria, entre a experiência e o conceito. É justamente nesse encontro que a proposta da Filosofia da Terra encontra uma de suas maiores potencialidades. O campo não aparece apenas como objeto de estudo, mas como território vivo de experiências, saberes, conflitos, memórias, culturas e possibilidades de criação. Estes estudantes chegam à universidade trazendo consigo conhecimentos construídos na vida comunitária, na agricultura, nas organizações coletivas, nas lutas pela terra, na relação com a natureza e nas tradições de seus povos. Esses saberes não são considerados obstáculos à formação acadêmica; ao contrário, constituem pontos de partida para um diálogo crítico e horizontal com o conhecimento filosófico e científico.
Podemos afirmar que esta experiência também reafirma uma concepção de educação do campo que ultrapassa a simples interiorização ou descentralização do ensino superior. Educação do campo significa pensar a formação a partir dos sujeitos, dos territórios e de suas formas de vida, reconhecendo que a universidade pode aprender com as comunidades tanto quanto pode contribuir para seus processos formativos. E nesse movimento, o conhecimento deixa de ser compreendido como algo produzido exclusivamente dentro dos muros da instituição universitária e passa a ser construído no diálogo entre diferentes experiências, saberes e formas de interpretar o mundo.
 A implantação da turma especial de Licenciatura em Filosofia da Terra pela Uesc reafirma o compromisso institucional com a democratização do ensino superior, a educação do campo, a inclusão de populações historicamente afastadas da universidade e a aproximação da instituição com os territórios e suas comunidades. Ao mesmo tempo, desafia a própria Universidade a repensar seus modos de ensinar, pesquisar e produzir conhecimento, reconhecendo a diversidade epistemológica que atravessa a sociedade brasileira.
Para os movimentos sociais e as comunidades do campo, a presença da universidade no território representa também a possibilidade de construir novas relações entre formação acadêmica e transformação social. Como lugar da inquietação, a filosofia pode contribuir para formular perguntas, problematizar certezas, interpretar experiências e ampliar a capacidade coletiva de compreender as contradições do presente. Pode, sobretudo, ajudar a transformar a experiência vivida em reflexão crítica, sem perder de vista que todo pensamento nasce de algum lugar e se dirige a algum mundo.
O Assentamento Terra Vista, portanto, não é apenas o lugar onde se inicia uma nova turma. É parte constitutiva da própria experiência formativa. É território de aprendizagem, espaço de memória e de luta, lugar onde diferentes formas de conhecimento podem se encontrar. A universidade, ao chegar ao assentamento, também é convidada a deslocar-se: a sair de seus lugares habituais, escutar outros saberes e reconhecer que o conhecimento se produz em muitos espaços e por muitos sujeitos. A Licenciatura em Filosofia da Terra nasce, assim, como uma experiência que aproxima universidade e movimentos sociais e que procura superar a histórica separação entre teoria e prática. Seu sentido mais profundo talvez esteja justamente na possibilidade de formar sujeitos capazes de pensar a realidade a partir da experiência e transformar a experiência em pensamento, fazendo da filosofia não apenas uma disciplina acadêmica, mas uma prática de leitura crítica do mundo e de construção de outros futuros.

Quem esteve presente na abertura da turma no Assentamento Terra Vista pode vivenciar mais do que o início de um curso, mas a realização de uma aposta coletiva na educação como direito, na filosofia como prática de pensamento e na universidade como espaço público comprometido com a transformação social. É também a expressão de uma convicção compartilhada por aqueles que construíram essa experiência: não há verdadeira democratização do conhecimento sem diálogo com os territórios, assim como não há transformação social duradoura sem a capacidade de pensar e transformar o mundo.

Antonio Balbino Marçal Lima

Professor do Departamento de Filosofia e Ciências Humanas da UESC

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Uesc e Itabuna: Compromisso com o Desenvolvimento Regional

Os bons cristãos

Padre Cristo inicia tratamento radioterápico em Campina Grande e renova mensagem de fé e esperança